terça-feira, maio 09, 2006

Antologia do “Aveirismo” e antagonismo do “Beiramarismo”

Por vezes, felizmente não muitas, chegar a casa e dar uma vista de olhos pela imprensa portuguesa disponível online é uma experiência surpreendente, imaginativa e fantasiosa. Uma verdadeira catarse. Hoje, estou a viver uma dessas noites!

Antes de mais ilações, e precavendo-me de críticas maldizentes e descontextualizadas, os meus mais sinceros parabéns ao Sport Club Beira-Mar pelos seus feitos recentes.

Actualmente, a materialização da subida de divisão e a conquista do campeonato da Segunda Nacional, (que me perdoem os puristas mas, para mim, permanece como Segunda Divisão Nacional), granjearam um novo fôlego ao discurso do Presidente do Clube Campeão. Era previsível!

A entrevista do sr. Artur Filipe, no Diário de Aveiro de hoje, encontra-se repleta de detalhes e, temos de aquiescer, de alguns recados. Explícitos e implícitos. Merece uma análise (não detalhada, porque não possuo tempo para isso). Ainda assim, convém salientar, a grande maioria das apreciações feitas pelo sr. Artur Filipe não são, em minha opinião, somente de sua responsabilidade. Apesar de isoladamente proferidas, reflectem, possivelmente, aquilo que os “Beiramarenses” (sem confundir com os habitantes, naturais, ou “culturalmente adoptados”, da zona da Beira-Mar na Vera-Cruz), que o elegeram, pensam. Como não votei no sr. Artur Filipe, até porque, assumo, não sou sócio do Beira-Mar, interessam-me quase em exclusivo as suas afirmações que, enquanto Presidente do Sport Club Beira-Mar, extrapolam a esfera de influência da Instituição.

Primeiro, por “uma questão de português” e pensando eu ser capaz de reconhecer retórica falaciosa quando a leio, constatei que não sou Aveirense ou, na melhor das hipóteses, sou pouco Aveirense. Porque, de acordo com as afirmações do sr. Artur Filipe na referida entrevista, um Sócio do Sport Club Beira-Mar é mais Aveirense que um Não Sócio.

Pergunto, será mesmo? Será um Sócio do Beira-mar mais Aveirense que alguém Não Sócio? E, se não gostar de futebol? Se nem gostar de desporto? E se, gostando de desporto, preferir o Clube do Povo de Esgueira? Ou, adorar futebol mas simpatizar com o FIDEC ou a AD Tabueira? Face aos argumentos do sr. Artur Filipe pergunto, serão os sócios do Beira-mar a nata do Aveirismo? Todos os Sócios? Mesmo aqueles que, assumindo eu a dimensão supra-concelhia do Sport Club Beira-Mar, nunca viveram, estudaram ou trabalharam em Aveiro?

Penso que, passe a imodéstia, até percebo qualquer coisinha de desporto e como defendi durante 4 anos as cores Clube, como jogador de basquetebol, “ganhando” água quente e a pagar do próprio bolso as inscrições, sem nunca ter no entanto visto no Pavilhão do Clube o sr. Artur Filipe, isso me garante alguma legitimidade, para falar igualmente sobre assuntos respeitantes ao Sport Club Beira-Mar (SCBM). Não sei. Pode ser que, para o sr. Artur Filipe, os “Beiramarenses” das secções de judo, boxe e basquetebol, sejam menos “Beiramarenses” que os outros! É melhor nem arriscar. Não o farei. Recoloco o cartão de (ex-) jogador na carteira e prossigo a leitura da entrevista.

As confusões do sr. Artur Filipe não se cingem ao ponto referido acima, à exponenciação do “Aveirismo” via cartão de sócio do Clube que preside. Existe outra grande confusão, não só nele infelizmente, na assumpção de interdependência e de mistura entre política e desporto. Utilizar o desporto para obter benesses políticas ou a política para garantir favores na esfera desportiva não é legítimo. Se, para sr. Artur Filipe, a sua “política (…) é o Beira-Mar e nada mais.”, então não há política para o sr. Artur Filipe, porque o SCBM, caso ainda não tenha percebido, é um Clube Desportivo e não um Partido Político. Também como credor da Câmara, o SCBM não é mais nem menos que o sr. Joaquim de Esgueira, o sr. André da Forca, a sra. Maria de Azurva, ou quaisquer outros credores. O Presidente do SCBM não consegue compreender porque deve ser tratado equitativamente, espero eu que não se esqueçam de faze-lo os responsáveis camarários, na hora de fazer frente às responsabilidades Municipais, assim como, num último detalhe, e seja qual for a legitimidade e interesse para os Aveirenses do protocolo com o SCBM, que como já o disse aqui não devia sequer preocupar-me, alguém explique ao sr. Artur Filipe que aquilo é um subsídio e, já agora, o que é que é um subsídio.

Do Município de Aveiro todos somos sócios! Aqueles que vivemos, trabalhamos, ou apenas passamos por ali. Escolhemos por sufrágio quem dirigirá os destinos da autarquia e, por muito que não concordemos com a escolha, entregamos fundos, directa e indirectamente, que constituirão o esqueleto (mal construído diga-se) de cada Orçamento Camarário. Ou mudamos de sitio, (e, uma vez mais para evitar críticas despropositadas, resido em Madrid desde antes das eleições autárquicas de Outubro passado), ou ficamos e, pagamos!

Numa Colectividade/Clube desportivo temos mais escolha. Primeiro, se gostamos ou não gostamos, se gostamos antes de pintura, da associação perdidos e achados ou não gostamos de nada, de nenhuma das Colectividades/Clubes desportivos do concelho. Em segundo, se gostamos mas não confiamos em quem dirige os destinos dessa Colectividade/Clube. Em nenhum destes casos somos obrigados a pagar.

Apesar de tudo o que disse sr. Artur Filipe, sinto-me Aveirense. Não sou sócio, não vivo, não trabalho e, sacrilégio, estudei em Coimbra. Sinto-me Aveirense quando compro o “Expansión” e folheio, deliciado, uma reportagem de 4 páginas sobre “Aveiro, La Venecia Portuguesa”. Quando o mantenho debaixo do braço todo um “jueves”, aproveitando qualquer oportunidade para voltar a folhear, para mostrar, orgulhoso, a minha cidade e região a amigos e conhecidos, a quem passar! Quando, contrariamente àquilo que acontece com o sem número de jornais que diariamente consulto, guardei aquela revista destacável do “Expansión”, que mantenho, neste preciso momento em que escrevo, sobre a mesa da sala. Quando em todas as oportunidades que tenho, por muito curtas que sejam, dou um saltinho a Aveiro e quando procuro saber tudo o que por aí acontece.

Não me arrogo de ser o mais Aveirense nem me assenhoreio ter a capacidade para atribuir esse epíteto a outrem, mas não será ninguém mais aveirense que eu por ser sócio do SCBM sem que eu o seja.

Umas perguntinhas finais:
Paulo Portas é Sócio do Sport Club Beira-Mar? Se sim, é mais Aveirense por isso?
Se me tornar sócio do Real Madrid passarei imediatamente a ser, além de Madridista, Madrileño? Mais ainda que aqueles que, nados e criados em Madrid, sejam, por exemplo, sócios do Atlético de Madrid?

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